
Sacramentos de comunidades cismáticas e heréticas
Para afirmar que os cristãos e as comunidades separadas da Igreja estão em “comunhão imperfeita” com a Igreja, Vaticano II invoca, como o Cardeal Ratzinger, os “elementos de santificação” de que são portadoras, e, pelos quais comunicar-se-iam com a única Igreja de Cristo.
Não é verdade que as comunidades cismáticas ou mesmo heréticas conservam elementos de santificação?
É verdade que os protestantes conservam a Sagrada Escritura (mais ou menos alterada), e que os cismáticos orientais conservam os Sacramentos. Mas a teologia tradicional não designava essas realidades roubadas da Igreja Católica como “elementos de santificação”; mas sim como “vestígios” da verdadeira Religião.
A substituição do termo “vestígios” pelo termo “elementos de santificação” é importante?
Essa mudança de vocabulário não é inocente, pois a palavra “vestígios” exprimia uma verdade capital: os elementos roubados da Igreja Católica pelas comunidades separadas cessam, por isso mesmo, de serem uma realidade viva. Viram “ruínas”.
O Sacramento do Batismo dado em uma comunidade separada da Igreja pode, no entanto, ser válido; o termo “elemento de santificação” não é mais apropriado que o de “ruína”?
É necessário distinguir, cuidadosamente, sacramento válido e sacramento frutuoso. Um sacramento pode ser válido sem ser frutuoso; isto é, sem dar a Graça, se encontra na alma um impedimento a esta Graça.
Podeis precisar com um exemplo essa distinção entre sacramento válido e sacramento frutuoso?
O Sacramento do Matrimônio seria recebido validamente, mas não frutuosamente, por uma pessoa em estado de pecado mortal. Estaria realmente casada; mas não receberia as Graças habitualmente dadas por este Sacramento (e, além disso, cometeria um sacrilégio).
Em que esta distinção entre sacramento válido e sacramento frutuoso concerne às comunidades heréticas ou cismáticas?
A distinção entre sacramento válido e sacramento frutuoso é importante porque a filiação ao cisma, ou à heresia, é em si um impedimento à Graça.
Isso implica que uma realidade sagrada, mesmo santa em si mesma, não pode ser um “elemento de santificação” enquanto está numa comunidade separada da Igreja. Esta comunidade é, em si, um impedimento à eficácia santificadora do elemento que roubou.
Não há, entretanto, casos em que os sacramentos dispensados fora da Igreja podem ser frutuosos (isto é, dar a Graça)?
Os sacramentos dados fora da Igreja apenas podem ser frutuosos nos casos em que a pessoa que os recebe não adere, formalmente, à heresia ou ao cisma. (É o caso, por exemplo, das crianças que não têm ainda o uso da razão; ou de pessoas que estão no que se chama “ignorância invencível”). Nesses casos, mesmo se o sacramento for materialmente recebido em uma comunidade separada da Igreja, a pessoa só o recebe de modo frutuoso porque escapa, por sua intenção (in voto) a esta comunidade.
Esse ensinamento é correto e tradicional na Igreja?
Santo Agostinho explica que todos os bens que estão dentro da Igreja podem se encontrar, em certa medida, fora da Igreja; salvo a Graça pela qual esses bens são salvíficos:
“Deus, por sua unidade, pode ser honrado fora da Igreja; a fé, que é uma, pode se encontrar fora Dela; o Batismo, que é único, pode ser administrado validamente fora de seu seio. E, todavia, do mesmo modo que há um só Deus, uma Fé e um Batismo, há apenas uma Igreja incorruptível: não a única em que é honrado o verdadeiro Deus; mas a única em que Deus é honrado com piedade; não a única em que a verdadeira fé é conservada; mas a única em que é conservada junto com a caridade; não a única em que exista o verdadeiro Batismo; mas a única em que este existe para a salvação.” [Ad.Cresc. livro 1, capítulo 29].
Podeis citar, sobre esse assunto, um outro Padre da Igreja?
São Beda, o Venerável, em seu Comentário sobre a primeira epístola de São Pedro, exprime aquela verdade de uma maneira impactante.
Partindo da analogia feita por São Pedro entre o Dilúvio e o Batismo, explica que, para os que são batizados fora da Igreja, a água do Batismo não é instrumento de salvação; mas sim de danação:
“O fato de que a água do Dilúvio não salva; mas mata os que estão situados fora da Arca, prefigura, sem nenhuma dúvida, que todo herege, mesmo que possua o sacramento do Batismo, não é mergulhado no Inferno por outras águas; mas precisamente pelas que elevam a Arca aos Céus.” [185]
Não é exagerado dizer que o Batismo recebido fora da Igreja seria uma causa de danação?
A participação ativa em uma cerimônia religiosa de uma comunidade herética ou cismática é, de si, por sua própria natureza, um assentimento à fé dessa comunidade.
Mesmo o Batismo se torna, pois, nessas circunstâncias, pecaminoso e ocasião de escândalo. É por isso que São Beda, o Venerável, diz que a água mesmo do Batismo é, neste caso, causa de danação.
Vaticano II se opõe a esse ensinamento?
Sim, Vaticano II se opõe a esse ensinamento, ao afirmar que as comunidades heréticas ou cismáticas estão em comunhão imperfeita com a Igreja, e, ao dar a entender que há, nas comunidades cristãs separadas da Igreja Católica, uma certa presença (imperfeita) da Igreja de Cristo.
Essa ideia de uma presença (imperfeita) da Igreja de Cristo nas comunidades separadas da Igreja Católica foi enunciada explicitamente?
João Paulo II afirma na sua encíclica Ut unum sint:
“Nas outras comunidades cristãs, há uma presença ativa da única Igreja de Cristo”. [186]
Mas se pode encontrar essa ideia em Vaticano II?
Lê-se, no decreto Unitatis redintegratio, sobre as igrejas orientais cismáticas:
“Assim então, pela celebração da Eucaristia do Senhor nessas Igrejas particulares, a Igreja de Deus (sic) se edifica e cresce, a comunhão entre elas se manifestando pela concelebração.” [187]
Uma comunidade que se separou da verdadeira Igreja é, pois, considerada como pertencente à “Igreja de Deus”.
Como Vaticano II considera as religiões não-cristãs?
Mesmo para com as religiões não-cristãs, Vaticano II se esforça em ter a visão mais positiva possível. A declaração conciliar Nostra aetate canta hinos de louvor em honra do hinduísmo, do budismo, do islã e do judaísmo.
Como se pode caracterizar essa mudança de atitude para com as religiões não-cristãs?
Enquanto que, antigamente, a Igreja trabalhava para evangelizar os adeptos das religiões pagãs, a Igreja pós-conciliar entretém um “diálogo” com estas.
Essa mudança de atitude é reconhecida publicamente?
O documento Diálogo e Missão do Secretariado Pontifício para os não-cristãos afirma, explicitamente, desde suas primeiras linhas:
“Vaticano II marcou uma etapa nova nas relações da Igreja Católica com os crentes das outras religiões. (...) Essa nova atitude tomou o nome de diálogo. [188]”
O que significa essa palavra “diálogo” na linguagem conciliar?
O documento Diálogo e Missão precisa sobre a questão da palavra “diálogo”:
“Significa não apenas o fato de se falar; mas também o conjunto das relações inter-religiosas, positivas e construtivas, com as pessoas e as comunidades de diversas crenças, para aprender a se conhecer e a se enriquecer uns aos outros.(nº3)” [189]
O mesmo documento dá, no nº 13, essa definição do diálogo:
“(...) O diálogo, graças ao qual, os cristãos encontram os crentes de outras tradições religiosas para andar juntos na busca da Verdade [!!!], e para colaborar em obras de interesse comum.” [190]
O que é preciso concluir dessas afirmações?
Se os católicos trabalham com os não-cristãos na busca da Verdade e se se trata de um enriquecimento recíproco, fica claro que a Igreja abandonou a pretensão de sozinha possuir a Verdade!
Os partidários do ecumenismo conciliar renunciaram explicitamente a converter os não-católicos?
Muitos partidários do ecumenismo conciliar renunciaram a converter os não-católicos. Lê-se, por exemplo, no Catecismo Ecumênico, prefaciado por Mons. Degenhardt, Arcebispo de Paderborn, e vivamente elogiado por vários Bispos:
“O fim não é o retorno; mas sim a comunhão de Igrejas-irmã; unidade na diversidade reconciliada; unidade das Igrejas. As Igrejas permanecem; mas se tornam uma só Igreja.” [191]
Notas:
[185] Quod ergo aqua diluvii non salvavit extra arcam positos, sed occidit, sine dubio praefigurabat omnem hereticum, licet habentem baptismatis sacramentum, non aliis, sed ipsis aquis ad inferna mergendum, quibus arca sublevatur ad coelum. São Beda, o Venerável, Comentário sobre a primeira epístola de São Pedro (1Pd 3,21), PL 93, col.60.
[186] João Paulo II, encíclica Ut unum sint, §11.
[187] Vaticano II, decreto Unitatis redintegratio (sobre o ecumenismo), §15.
[188] DC nº 1880(1984), p.844. Esse documento foi aprovado pelo Papa João Paulo II em 10 de junho de 1984.
[189] DC nº 1880 (1984), p.844.
[190] DC nº1880 (1984) p.845.
[191] Heinz Schütte, Glaube im ökumenischen Verständnis, Ökumenischer Ktechismus, Paderborn, 1994, p.33.
Notas da imagem:
Líderes religiosos reunidos para a assinatura de uma declaração conjunta contra a escravidão, em dezembro de 2014, no Vaticano.
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